Para quem como eu é do tempo em que o professor fazia toda a diferença na vida dos jovens e atuava nas escolas públicas com muita competência e respeito, dá uma tristeza danada ver como o governo do Paraná vem tratando o professorado. Parece que não anda mais fazendo concurso e nem qualificando os profissionais da educação, que deixam de ter estabilidade no nobre mister, para lecionar como temporários. O pouco caso com que o governo Ratinho Júnior trata a escola pública, que ele quer transformar em escolas militares, chega a ser criminoso.
Messias
50 ANOS DA REVOLUÇÃO DOS CRAVOS
Há meio século um portuguesinho arretado se abraçou a mim e cantando Grândola Vila Morena, choramos juntos.
Hoje faz 50 anos, que numa manhã de sexta-feira me surpreendi com o Mini Chico entrando na redação da sucursal da Folha de Londrina e cantando com lágrimas escorrendo pelos olhos a canção de Zeca Afonso, hino da Revolução dos Cravos. Não entendi direito o que estava acontecendo, quando sintonizamos a Rádio Tupi para ouvir o noticiário internacional. A notícia era exatamente sobre a entrada das tropas do general Spínola em Lisboa, decretando o fim de 41 anos da ditadura salazarista.
Mini Chico, uma fera do jornalismo agrícola, veio de Portugal com seus pais, fugindo da ditadura de Antônio Salazar. O Brasil também vivia uma ditadura, mas a família do Chico e do Germano, outro grande jornalista que por aqui passou, conseguiu se instalar e se estruturar em Maringá. A Revolução dos Cravos marcou a história de Portugal e como alguém que viveu aquela emoção abraçado a um imigrante português, me arrepia ouvir de Chico Buarque:
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim”
Sanepar sob ameaça de greve
Mas deixa estar que a coisa na Sanepar também não anda boa. Semiprivatizada , a companhia de saneamento do Paraná está na eminência de enfrentar uma greve geral de seu funcionalismo. O problema também está no péssimo relacionamento da diretoria com os trabalhadores. A causa, claro e evidentemente, é a política salarial. Só pra se ter uma ideia, os salários não são corrigidos acima da inflação desde 2012 e o valor do vale alimentação é o mesmo há mais de uma década. Isso num contexto em que a Sanepar registrou lucros exorbitantes. Que está rindo à toa são os acionistas da empresa,
Curto-circuito nas relações trabalhistas da Copel
A Copel está bem pior hoje do que era até agosto de 2023 quando foi privatizada. O restabelecimento de energia quando há um apagão demora mais, as tarifas aumentaram além da conta e a política salarial da empresa passou a privilegiar os diretores e deixar os empregados em segundo plano.
Conforme denúncia do deputado estadual Arilson Chiorato (foto Blog do Esmael), o programa de demissão voluntária tem gerado indignação no quadro próprio, principalmente com o desrespeito flagrante ao pagamento de direitos trabalhistas.
“ A falta de cumprimento de obrigações trabalhistas básicas e o aumento exagerado dos salários dos diretores (o salário do diretor-presidente pode chegar a R$ 380 mil) em meio a esse cenário geram indignação entre os consumidores e levantam questionamentos sobre a ética empresarial e a responsabilidade social da Copel”, disse Chiorato em discurso na Assembleia Legislativa.
Cadê os jovens ?
O grande Frei Beto chama a atenção para a crônica anunciada de uma tragédia que nos espreita, sem que nos demos conta de suas consequências. Na verdade, não é um alerta direto, mas uma observação preocupante. Trata-se da composição das plateias que tem assistido palestras e debates sobre o Brasil do futuro, com questionamentos duros sobre a realidade atual, de ascensão da direita e encolhimento dos setores progressistas no país.
Perto de fazer 80 anos, o frei dominicano, um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros da atualidade, diz que os auditórios das boas palestras e dos bons debates sobre política estão sempre cheios de pessoas de cabelos brancos ou pintados. Faltam jovens no pedaço, o que é preocupante e o remete à reflexão que Belchior nos leva a fazer na canção “Como Nossos Pais”. Frei Beto lembra o verso cortante do saudoso poeta nordestino, cantado magistralmente por ele e por Elis Regina:
“Minha dor é perceber / que apesar de termos feito / tudo, tudo, tudo, tudo que fizemos / ainda somos os mesmos e vivemos (…) como os nossos pais”. “Nossos ídolos ainda são os mesmos”. E não vemos que “o novo sempre vem”.
A cutucada
A direção da Itaipu Binacional, presidida pelo maringaense Ênio Verri, manda dizer a Ratinho Júnior que o dinheiro para a duplicação da Rodovia das Cataratas está disponível e cabe ao Governo do Paraná executar o projeto. Para cutucar o ocupante do Palácio Iguaçu, a empresa informa em nota que “ 100% dos recursos necessários para a duplicação da BR-469, conhecida como Rodovia das Cataratas, estão liberados e disponíveis para execução das obras, conforme termos do convênio assinado entre a Itaipu, o DNIT e o governo do Estado”. E mais: “Os atrasos decorrentes de qualquer natureza da obra não são de responsabilidade da usina”.
Mantida a proibição do “pito da morte”
Sempre que vejo uma pessoa sugando fumaça num cigarro eletrônico fico pasmo. Como pode alguém entrar nesse processo de suicídio programado, sem se dar conta do perigo? Até os pernilongos da Borracharia do Chico Carpideiro sabem que o cigarro eletrônico é uma espécie de auto envenenamento. Não por outro motivo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, mais conhecida como Anvisa, mantém a proibição do chamado tabaco aquecido. Poucos países do mundo liberam o cigarro eletrônico, chamado de bomba relógio por pneumologistas.

A Lava Jato foi buscar lã e acabou tosquiada
Um acordo de leniência assinado pela Petrobras com o Departamento de Justiça americano implicou no pagamento pela estatal brasileira de mais de R$ 5 bilhões. E embutido no acordo, o compromisso dos americanos era de enviar R$ 2,5 bilhões para “autoridades brasileiras”, sem no entanto especificar que autoridades seriam essas. A grana caiu nas mãos do Ministério Público Federal, diretamente numa conta gerida pelos procuradores da Lava Jato. Essa montanha de dinheiro, que deveria ter sido entregue aos cofres da União, foi parar numa conta do MP na Caixa Econômica e de lá migraria para uma fundação privada, provavelmente presidida por um dos procuradores da Lava Jato, então liderados por Deltan Dallagnol, que virou deputado federal e teve seu mandato cassado pelo TSE.
Pois esse escândalo foi levantado pelo ministro do STJ Luís Felipe Salomão, que atuou como corregedor do Conselho Nacional de Justiça ao esmiuçar os descaminhos trilhados pela República de Curitiba, comandada pelo juiz Sérgio Moro. O caso é complicado, mas Salomão decidiu destrinchá-lo, começando por afastar alguns envolvidos, como a juíza Gabriela Hardt, que substituiu Moro na 13ª. Vara Federal de Curitiba e homologou o acordo hora sob investigação.
Ocorre que o pleno do CNJ suspendeu a suspensão temporária da juíza e manteve fora da magistratura dois desembargadores do TRF4, por fazerem vistas grossas ao processo de criação do tal fundo privado. A coisa está caminhando e pelo andar da carruagem, pode complicar a vida dos atores da Lava Jato, que surgiu inspirada pela Operação Mãos Limpas da Itália e a pretexto de combater a corrupção no Brasil, acabou na lama.
Uma reflexão necessária
Existem dois tipos de guerra: a que sangra e mata e a que mata sem violência física, mas com a destruição de reputações. E o curioso é que os que fomentam essa última e se colocam na linha de frente para ficar na história como heróis acabam não levando os benefícios que acharam ter conquistado. Quem ganha são os oportunistas, que surfam sobre o caos e pousam como salvadores da pátria, como os seres que vão resgatar a autoestima e a dignidade de um povo destroçado pela crise previamente fabricada.
Quem faz esta importante reflexão, é o ex-deputado José Genoíno, que foi preso e torturado na ditadura militar e na democracia, foi enxovalhado (e também preso) pela máquina de moer biografias, acionada pelo que se convencionou chamar de mensalão, engendrado a partir de uma delação premiada do desqualificado Roberto Jeferson. Para Genuíno, o objetivo inicial era evitar a consolidação no poder de um projeto político voltado a pautas sociais e à inclusão dos pobres no orçamento da União.
Não satisfeitos por não terem quebrado as pernas do líder desse projeto na época, deram um jeito de tirar Lula de cena anos depois com a Lava Jato, cujos atores estão agora às voltas com cassação de mandatos e na mira da Justiça, a mesma que encarnavam naquele momento de espetacularização do lawfare. Não conseguiram, porque mesmo engaiolando Lula por 580 dias , ele acabou voltando para o seu terceiro mandado na presidência da república. Desse processo fica a lição de que a esquerda ainda não parece ter aprendido: a sanha golpista continua ativa e ameaçando a democracia brasileira, dia sim e dia também. É preciso reagir aos espasmos bolsonaristas com inteligência.
O que é um poeta?
Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
. Otto Lara Resende

