O ano era 1974. Eu trabalhava na sucursal da Folha de Londrina e junto comigo, um portuguesinho porreta de nome Francisco Oliveira, que a gente chamava carinhosamente de Mini-Chico. Seu pai tinha fugido com a família da ditadura salazarista e veio parar em Maringá, onde dois dos filhos começaram no jornalismo. Naquela manhã de 25 de abril Mini-Chico entrou na redação cantando emocionado Grândola Vila Morena, a música que se tornaria o hino da revolução dos cravos. Por coincidência, eu tinha acabado de ouvir no rádio, que o general Antônio Spinola, entrara com suas tropas em Lisboa. A população foi pras ruas ver a passagem triunfal dos revolucionários, que exibiam cravos vermelhos nos canos de suas armas de guerra. Foi muito bonita a festa, pá…
Mini-Chico ficou exultante, porque tinha certeza de que ali estava plantada a semente de uma sólida democracia e da restauração da paz e da civilidade na terra de Camões. Eu não sabia a letra, mas segui a voz desafinada do colega, formando com ele, um dueto, que também me fez ir às lágrimas. Um ano depois da revolução dos cravos, Grândula Vila Morena embalou um manifesto político em Santiago do Chile, contra o governo sanguinário de Augusto Pinochet.
Há anos não vejo nem o Mini-Chico e nem seu irmão Germano, que também trabalhou comigo na sucursal Folha. A última notícia que tive do Germaninho é que ele estava na chefia de redação da revista Isto É em São Paulo. Quanto ao Mini-Chico, soube que deixou o jornalismo e continuava morando em Porto Alegre, onde pilotava um site de compra e venda de carros pela internet. Vale o registro: Mini-Chico ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo pela cobertura para a Folha e o Estadão, da geada negra que dizimou os cafezais do Paraná em julho de 1975. Lembrei dele dia desses, quando a revolução dos cravos completou 52 anos. Não o tinha por perto para um novo dueto, mas cantarolei sozinho a canção do grande compositor português Zeca Afonso.





