A experiente colunista política Dora Kramer ( Folha de S.Paulo) faz uma retrospectiva interessante, que leva o seu leitor a entender um pouco da cabeça de Jair Messias Bolsonaro. A história desse personagem tóxico da política brasileira, é assim resumida pela jornalista: “Em 1986 ele era cabo do Exército e foi preso por 15 dias por atos de indisciplina relacionados à reinvindicação por aumento de salário. No ano seguinte apareceu como autor de um plano para explodir bombas em quarteis pelo mesmo motivo. Foi julgado, condenado e depois absolvido pelo Superior Tribunal Militar, quando passou para a reserva como capitão. De cabo a capitão em pouco mais de um ano é algo impossível de acontecer. Mas ele fez mais na democracia brasileira. Entrou para a política e, anos depois, de deputado federal anônimo, chegou a presidente da República. Se ficasse como “cabo”, poderia chegar a subtenente e ido para a reserva no anonimato, deixando o Brasil um pouco menos espantado”.
Ele não viveu para ver o que tinha previsto
Nunca é demais lembrar Gustavo Bebiano, braço direito do presidente Bolsonaro no início do governo e que depois se desentendeu com o clã. Não demorou e foi enxotado do Palácio do Planalto. Depois, com o coração cheio de justa mágoa, mandou um recado para seu ex-amigo e presidente Jair Messias: “ Tenho um celular com mensagens que se vier a público estremece a Praça dos Três Poderes”. O celular, claro, não estava em poder dele, Bebiano o havia deixado com um amigo que mora nos Estados Unidos. Meses depois ele morreu, de infarto segundo o laudo médico. Amigos e familiares estranharam, já que Bebiano não tinha problemas cardíacos, praticava esporte e gozava de saúde de ferro.
Estou lembrando da morte de Gustavo Bebiano, como lembrei também do mistério que ainda cerca as mortes de João Goulart e Juscelino Kubistchek , por causa da ameaça de envenenamento do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e da execução à bala, do então presidente do TSE , ministro Alexandre de Moraes. Bebiano sabia muito e o tal celular que ele disse que tinha , nunca apareceu. Se isso estivesse acontecido, Bolsonaro já estaria preso.
Carta aberta à vereadora Giselli Bianchini
Senhora vereadora, antes de mais nada, parabéns pela vitória nas urnas. Como perguntar não ofende, me atrevo a fazer umas perguntinhas básicas, oportunas dado o momento político que vivemos no país. Será que a nobre edil, eleita para o seu primeiro mandato, continua pensando que Bolsonaro seria a solução para o Brasil, se mantido no poder por meio de um golpe de estado sangrento, como ficou claro no curso das investigações da Polícia Federal? Sei que a senhora defende a democracia, mas que democracia é essa? A do discurso de ódio, da homofobia, do sexismo, do racismo e da síndrome de Caco Antibes ?
Espero que tenha mudado sua forma de pensar, de achar que o lema “ Deus , pátria e família” seja coisa de cristão patriota. O eleitor tem todo o direito de escolher quem quiser, ainda que tenha dificuldade de juntar lé com cré. A democracia , todos sabem, pressupõe bom senso e civilidade. Pressupõe sobretudo a convivência pacífica entre os diferentes. Pressupõe saber que feliz é o povo que se respeita mutuamente, independente da ideologia, da religião e da opção sexual de cada cidadão e cidadã.
Não sou menos brasileiro e menos patriota do que ninguém, só porque me recuso a sair por aí ostentando verde e amarelo, em autêntica usurpação dos símbolos nacionais. Pode acreditar : na condição de maringaense que há mais de meio século escolheu essa cidade para viver e aqui constituir família, desejo, de coração, que a senhora possa fazer um mandato profícuo, sobretudo de total apego à democracia e apreço pela ciência. Com perdão da metáfora já desbotada pelo excesso de uso, nunca é tarde para reconhecer que a terra é redonda.
A farsa poderia ter se repetido como tragédia
Tomando café com um amigo no balcão da Açucapê, ouvi um cidadão ao lado comparar a intentona fascista, que planejava matar Lula, Alckmin e Moraes, à Intentona Comunista de 1935. Nada a ver, porque esta de agora foi real, com provas consistentes da preparação do golpe que seria antecedido e precedido de um verdadeiro massacre. Aquela era uma revolta de marxistas, apoiados por militares sublevados , contra a ditadura do Estado Novo. Ali não havia qualquer possibilidade de revolução ou contragolpe. No caso presente, era concreta a articulação de um golpe de estado que, em nome de uma falsa liberdade e de um patriotismo cabotino, planejava depor um presidente eleito e promover um banho de sangue no país.
Em comum, havia o discurso do medo do comunismo, que na época aterrorizou a população desinformada e que hoje soa como ridículo, já que só os imbecis acreditam em tal ameaça. Só lembrando que no caso de 35, o clima de medo quanto a uma revolução vermelha, foi criado por um falso plano, o tal Plano Cohen, elaborado pelo chefe da polícia política de Getúlio Vargas, Filinto Müller, para justificar as prisões arbitrárias e a tortura dos prisioneiros. Certamente, a farsa da Intentona Comunista poderia se repetir 87 anos depois, mas como tragédia.
É pacabá
Incrível, a Jovem Pan defende Bolsonaro no caso escabroso da tentativa de assassinar Lula, Alkmin e Alexandre de Moraes. Os apresentadores do tal Pingo nos iis dão a exata dimensão do lixo que é esta rede nacional de televisão. Eles dizem, abusando, do sofisma canalha, que os militares diretamente envolvidos devem ser presos, “caso tudo isso seja mesmo verdade”. Que jornalismo é esse? Lixo? Pensando bem, é injusto chamar isso de lixo. Injusto com o lixo.
Foi um livramento
Foi estarrecedor o resultado da Operação Contragolpe revelado ao país nesta terça-feira. O plano diabólico que envolvia até generais do Exército previa o assassinato do presidente Lula e do vice Alckmin, além do presidente do TSE, Alexandre de Moraes. Tivesse a tentativa de golpe logrado êxito, uma verdadeira carnificina seria automática. Fico imaginando o clima de medo que o bolsonarismo imporia ao país. Foi por muito pouco que o Brasil não caiu na armadilha.
A guerra como prioridade
A doação de Biden à Amazônia (US$ 50 milhões) equivale ao envio de um dia de armas a Israel. (Jamil Chade)
6×1 x 4×3 reacende um debate necessário
A contenda capital x trabalho que Michel Temer tentou sufocar com uma reforma trabalhista mandrake está de volta. A discussão sobre a escala 6×1 (seis dias de trabalho por um de descanso) coloca em xeque o modelo trabalhista calcado no neoliberalismo. Temer, o vampiro brasileiro, atuou como verdadeiro longa manus no projeto de destruição da representação classista. Conseguiu em parte, porque a insegurança jurídica dos trabalhadores predomina nas relações empregado-patrão. E os sindicatos obreiros perderam musculatura e ficaram impotentes até para atuar nos processos rescisórios. Hoje, o empregado demitido fica à mercê do RH da empresa, inseguro quanto ao recebimento do seus direitos trabalhistas quando a demissão chega.
Só lembrando que a reforma trabalhista mandou pra longe a discussão naquele momento existente sobre a redução da jornada de trabalho das atuais 44 para 40 horas semanais. Claro que a escala 4×3 proposta pela deputada Erika Hilton é inviável, porém o projeto está servindo pelo menos para colocar o debate das relações de trabalho de novo no centro da roda.
Adeus anistia
Todos os caminhos da investigação sobre o 8 de janeiro leva a Bolsonaro. Há provas fartas e consistentes da tentativa de golpe, da violação criminosa da Constituição Cidadã. A depredação das sedes dos três poderes foi uma coisa chocante. As imagens do vandalismo político-ideológico correu mundo e não teve um só democrata em todo o Planeta que não tenha se indignado com aquela barbárie. Passados quase dois anos, vários envolvidos foram condenados e presos, mas o cabeça principal do golpismo não foi ainda sequer transformado em réu pela Suprema Corte. Agora é que a Procuradoria Geral da República vai formalizar as primeiras denúncias, o que pode finalmente abrir o caminho para a punição compatível com a gravidade do crime.
Bolsonaro vinha lutando com todas as suas forças para pressionar o STF a suspender a inelegibilidade, ao mesmo tempo em que seus aliados no Câmara dos Deputados tentavam enfiar goela abaixo do parlamento um projeto de anistia. Mas o atentado a bomba contra o prédio da Suprema Corte em que morreu o detonador, colocou água no chope do bolsonarismo.
Enfim, um bom exemplo
As polícias Civil e Militar dos estados só vão melhorar e cumprir o seu verdadeiro papel, sem estarem contaminadas pelo ambiente tóxico e perigoso da criminalidade, se levarem a sério a necessidade da autofagia. Claro, autofagia no sentido figurado, como fizeram a PF e a PRF, na gestão Flávio Dino à frente do Ministério da Justiça. Tanto a Polícia Federal quanto a Polícia Rodoviária Federal, cortaram na própria carne, expurgaram as laranjas podres e num processo sério e profundo de autodepuração, tornaram-se instituições respeitáveis e de vital importância no combate ao crime organizado. A análise não é minha, parto de uma entrevista excelente da desembargadora Ivana David, do Tribunal de Justiça de São Paulo, ao comentar o suposto envolvimento de policiais civis e militares do estado na execução sumária ocorrida em Cumbica, de um empresário envolvido com o PCC.